sexta-feira, 31 de maio de 2013

"O Segundo Sexo" - Simone de Beauvoir - Capítulo 2 (1:2 e 2:2) - "O ponto de vista psicanalítico" - Resumo por Elizabeth A.R




Capítulo 2: O ponto de vista psicanalítico (Parte 1 de 2)


Postado por Elizabeth A.R. 



* Este resumo foi escrito de uma única vez, mas pelo tamanho, achei melhor dividí-lo em duas partes para não ficar cansativo. A edição utilizada para este resumo é a 7ª edição do livro, da editora Nova Fronteira, 1980. Ou seja, a paginação se refere a esta edição e a todo o capítulo.




Páginas 59 - 72



Como foi pretendido mostrar no capítulo anterior, embora a Biologia forneça dados que não podem ser esquecidos ou desprezados, tais dados não possuem uma situação vivida. Um órgão importante como o ovário, não a define, enquanto o clitóris, um órgão sem grande importância, passa a ser considerado mais importante para a situação vivida, do que qualquer dado biológico poderia supor. 



Neste capítulo, Simone de Beauvoir vai criticar a interpretação psicanalítica da mulher.



A psicanálise tem algo a seu favor quando introduziu na psicofisiologia que o sentido humano reveste qualquer fato na vida psíquica do indivíduo. O ser humano é mais do que um simples corpo-objeto, ele é um corpo ativamente vivido pelo sujeito; o que dar-nos a abertura de falar que a mulher é mulher tanto quanto sente-se mulher. Da natureza sendo retomada pela atividade da mulher, que se define, foi edificado todo um sistema.



O que é preterido aqui não é critica a psicanálise, mas meramente examinar o que ela trouxe de novidade ao objeto de estudo do livro que é justamente a mulher.



"Não é empresa fácil discutir a psicanálise. Como todas as religiões – cristianismo, marxismo – ela se revela, sobre um fundo de conceitos rígidos, de uma elasticidade embaraçante." - BEAUVOIR, p. 59.



Por exemplo, o falo masculino, ora é considerado ao pé da letra, ora é considerado simbolicamente. A mesma elasticidade é aplicada na hora em que é realizada alguma crítica, pois quando a letra da doutrina é atacada, falam que não é compreendido o espírito da mesma; quando se aprova o espírito falam que é preciso levar em conta a letra. Onde estaria a verdadeira psicanálise? Mais de um psicanalista fala que o problema da psicanálise são os psicanalistas. 




Como Sartre e Merleau-Ponty afirmam “A sexualidade é coexistência à existência”. É possível uma conciliação entre sexualidade e existência, mas o que acontece é uma conversa mole da passagem da sexualidade para existência e nada mais. A noção de sexualidade fica vaga quando se limita a uma distinção do “sexual” e “genital”. Dalbiez diz “O sexual em Freud é a aptidão intrínseca para animar o genital.” Aptidão é possibilidade que por sua vez é fornecida pela realidade. Freud não justifica filosoficamente seu sistema, porem uma vez que nas afirmações de Freud há postulados metafísicos e utilizando dessa linguagem é da linguagem filosófica que ele utiliza-se. Confusões essas da psicanálise é que, ao mesmo tempo, complica uma crítica, a exige.


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Freud não se preocupou com o destino da mulher, apenas procurou a estudar a partir do destino do homem. Antes de Freud, um sexologista de nome Marañon afirmava que a libido e o orgasmo seria uma força viril, o que em outras palavras significa que a mulher que alcança seu orgasmo seria “viriloide”. Pelo menos neste ponto, Freud é mais ameno, pois este admite que a sexualidade feminina seja tão desenvolvida quanto a masculina, contudo, a libido é de uma força de essência e constante masculina. A diferenciação da sexualidade só se daria na fase genital.



"Freud pôs em foco um fato cuja importância, antes dele, não se havia ainda reconhecido totalmente: o erotismo masculino localiza-se definitivamente no pênis, ao passo que há, na mulher, dois sistemas eróticos distintos: um clitoridiano, que se desenvolve no estágio infantil e outro, vaginal, que surge após a puberdade."  BEAUVOIR, p. 61.



O jovem tem o desenvolvimento de sua sexualidade na fase genital, ele então passará da fase auto-erótica para a fase que erotizará, geralmente, a mulher; seu pênis é seu órgão privilegiado. O parecido com a mulher, porém quando deixa a fase auto-erótica, será preciso que passe da fase clitoridiana para a vaginal, mas nem sempre isso ocorre, o que a deixará num estágio infantil e desenvolverá neuroses.



No estágio infantil, a criança fixa-se a um objeto. O menino na mãe, querendo uma identificação com o pai do mesmo modo que o teme, seja por medo de uma punição ou por medo de uma mutilação; então cria-se em relação a ele sentimentos agressivos do mesmo modo que aceita sua autoridade. Do “complexo de Édipo” ao “Complexo da castração”, com o superego censurando as tendências incestuosas e no momento em que o complexo desaparece, fica no indivíduo regras morais.






Do mesmo modo, Freud descreve a menina, que no estágio infantil sente-se atraída pelo pai (Complexo de Electra), mas quando a menina descobre a diferença anatômica dos gêneros (aproximadamente aos 5 anos) ela reage a falta do pênis com um, também, complexo de castração. Ela gostaria de assemelhar-se ao pai, cria um sentimento de hostilidade e rivalidade em relação a mãe. Entretanto, diferentemente do superego masculino, o feminino é frágil, o complexo de Electra é menos nítido e se a menina tiver irmãos, reagirá a falta do pênis recusando sua feminilidade e cobiçando um para ser semelhante ao pai, ficará no estágio clitoridiano, sendo frígida ou assumindo um comportamento lésbico.




Capítulo 2: O ponto de vista psicanalítico ( Parte 2 de 2)

* Este resumo foi escrito de uma única vez, mas pelo tamanho, achei melhor dividí-lo em duas partes para não ficar cansativo. A edição utilizada para este resumo é a 7ª edição do livro, da editora Nova Fronteira, 1980. Ou seja, a paginação se refere a esta edição e a todo o capítulo.


Sem dúvida nenhuma, Freud acredita que a mulher sente-se mutilada por não ter um pênis e lamenta não ser equiparada ao homem. 


Essa “falta” pode ser meramente de uma confrontação anatômica; muitas meninas só descobrem essa diferença anatômica bem depois dos 5 anos e a faz de vista. O menino tem em seu pênis uma experiência vivida, orgulha-se dele, mas isso não fornece a base para afirmar que a menina sente-se humilhada por não ter um. A noção do complexo de Electra é vaga, pois não há como afirmar que ao ser beijada pelo pai a menina sinta uma estimulação genital, pois o prazer clitoridiano é isolado, sendo apenas na puberdade que será desenvolvido as zonas erógenas.






"O fato de o desejo feminino voltar-se para um *ser soberano dá-lhe um caráter original, mas a menina não é constitutiva de seu objeto, ela o sofre." BEAUVOIR, p. 63

O complexo de Electra tem então apenas um caráter afetivo e difuso, mas Freud não fornece os meios para se discutir a afetividade e nem a soberania do pai. *De onde veio essa soberania? Ele atenta para a importância desta, mas não saberia explicar de onde ela vem; isso seria um progresso onde as causas são ignoradas. É por essa insuficiência do sistema freudiano que Adler rompe com Freud. Segundo Adler o homem vive três dramas:




Vontade de poder
Inferioridade de obter o poder
Subterfúgios de evitar a realidade que receia não poder vencer







Há então uma distancia entre o sujeito e o meio que teme e o provoca neuroses. Na mulher a inferioridade vem sob a forma da vergonha de recusar a feminilidade, o falo masculino é desejado, não como órgão viril, mas como simbolismo ao que sua posse representa, ele seria símbolo do privilégio concedido ao homem. A reação da mulher seria se masculinizar-se ou lutar por meio das armas femininas, por exemplo, na maternidade ela enxergaria no filho o substituto para o pênis e se aceitaria como mulher, assim como sua inferioridade.




Beauvoir não pretende insistir nas diferenças entre Freud e Adler e nem uma reconciliação dos pensamentos deles, mas expor que ambas as explicações são insuficientes.



"É o postulado comum a todos os psicanalistas. A história humana explica-se, segundo eles, por um jogo de elementos determinados. Todos atribuem à mulher o mesmo destino." BEAUVOIR, p. 64.






“Viruloides” ou “femininas”; querendo se identificar com o pai; sentimento de inferioridade; um querer-se ser homem... Com um marido solucionaria o amor que antes fora devotado ao pai; buscando um amante ou um amor sexual quer-se ser dominada e somente na maternidade teria sua autonomia... a mesma determinação da insatisfação feminina por não ser homem e de suas escolhas sendo fugas de sua inferioridade.
Não é complicado para os psicanalistas confirmar suas teorias, há até mesmo um esforço para abrandar as teorias freudianas por meios de relativismos, conciliando vários aspectos como num mosaico, acontece que a vida psíquica não é um agrupamento, ela existe em cada momento. Há uma recusa entre os psicanalistas em aceitar o poder que o indivíduo possui com a escolha e é justamente essa recusa, seu maior ponto fraco, pois os impulsos e proibições vêm da escolha-recusa existencial. Freud tenta substituir a noção de valor com a de autoridade, mas essa substituição não possui ferramentas que a explique.




Na sexualidade se empenha valores e eles não devem ser menosprezados, pois a sexualidade desempenha um grande papel na vida humana. Corpo e sexualidade, segundo Beauvoir, “são expressões concretas da existência, e também a partir desta que se pode descobrir-lhes as significações: sem essa perspectiva, a psicanálise toma, por verdadeiros, fatos inexplicáveis.”pag. 66.







O humano pretende alcançar sua existência pelo mundo de todas as formas possíveis. A virgindade, por exemplo, torna-se preciosa pelo amor do homem à integridade que por ela é simbolizada. O que o humano faz, define seu ser no mundo e é de um ponto de vista ontológico que a unidade da escolha é restituída. Pelo nome de um “inconsciente coletivo” a escolha é violentamente descartada, pois haveria imagens e símbolos universais, acontece que tais símbolos não caíram magicamente do céu, foi elaborado por uma realidade humana.

Angustia ser livre. E para fugir de si mesmo, o sujeito, volta-se para as coisas, sejam elas seu pênis, maná, totem, etc. O duplo para o menino é seu pênis, para a menina sua boneca e mais tardiamente seu filho.




"Mas uma vida é uma relação com o mundo; é escolhendo-se através do mundo que o indivíduo se define; é para o mundo que nos devemos voltar a fim de responder às questões que nos preocupam". BEAUVOIR, p. 69.



Como explicaria a psicanálise o fato da mulher se o Outro(?)Não explica. O que está sendo recusado aqui é o método psicanalítico, pois a sexualidade não é um dado, a libido feminina só foi estudada a partir da masculina e nunca a partir da subjetividade da mulher e sua passividade não é algo a priori. A mulher encontra-se num mundo de valores e suas condutas são livres, ela escolhe sua transcendência e igualmente como se deixa ser objeto; projeta-se diante de um passado que não é seu, num presente que se faz em rumo a um futuro que ainda não lhe pertence. A mulher é tão ser humano quanto o homem e numa tentativa de a definir, faz-se necessário conhecer o mundo de valores que ela se encontra, sua estrutura econômica e social, sob uma perspectiva existencial.


Fonte:


Documentário: Simone de Beauvoir: "No se nace mujer"

Simone de Beauvoir: "No se nace mujer"(vídeos):



Simone de Beauvoir: "No se nace mujer" 2:4



Simone de Beauvoir: "No se nace mujer" 3:4




Simone de Beauvoir: "No se nace mujer" 4:4


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